Além da sobrevivência: o que aprendemos com o lançamento da Rede Trabalho e Cidadania na Periferia

O Instituto Redes realizou, no dia 19 de março, o lançamento da Rede Trabalho e Cidadania na Periferia, no auditório do Corecon SP, localizado no centro histórico de São Paulo. A atividade reuniu representantes de instituições públicas, organizações da sociedade civil, lideranças territoriais e empreendimentos de economia solidária, contando com a presença de 50 participantes, com o objetivo de apresentar diretrizes, promover articulação e fortalecer estratégias de geração de trabalho e renda nos territórios periféricos.

Logo na chegada, já era possível perceber que algo diferente estava acontecendo. A presença do rap, do samba e da poesia falada trouxe uma dimensão simbólica importante: a valorização da cultura periférica como parte essencial — e não acessória — dos processos de desenvolvimento. Essa escolha metodológica, construída junto ao Instituto Redes, demonstra que não se trata apenas de discutir economia, mas de reconhecer os territórios como espaços de produção de conhecimento, identidade e inovação.

Cultura como ponto de partida

A abertura do evento, conduzida por Rô Marks e pelo coletivo Base ABCDMRR, trouxe a arte para o centro da reflexão. Slam, rap e poesia não foram apenas apresentações culturais, mas instrumentos de mobilização e conexão com o público.

Ao colocar a cultura como ponto de partida, a Rede reafirma que os saberes periféricos são fundamentais para qualquer proposta de transformação social. Essa abordagem contribui para aproximar o conteúdo técnico da realidade dos participantes, fortalecendo o engajamento e a participação ativa ao longo de toda a programação.

Da sobrevivência à economia viva

Um dos pontos centrais do encontro foi o debate sobre o papel da economia solidária. Historicamente tratada como alternativa marginal ou paliativa, ela é reposicionada aqui como estratégia concreta de desenvolvimento econômico e justiça social.

A proposta da Rede Trabalho e Cidadania na Periferia é clara: fortalecer iniciativas produtivas com potencial real de geração de renda, escala e inserção em mercados, superando a lógica assistencialista. Essa perspectiva ganhou forma na Mostra Solidária realizada durante o evento, onde produtos de empreendimentos apoiados evidenciaram qualidade, criatividade e valor de mercado.

Durante a mesa institucional, o presidente do Instituto Redes destacou um elemento central para a condução das ações: a economia solidária é composta, em sua maioria, por mulheres. Nesse sentido, reforçou que os projetos desenvolvidos pela instituição terão como eixo prioritário o fortalecimento das mulheres nos territórios, reconhecendo seu protagonismo histórico na organização produtiva, na geração de renda e na sustentação das redes comunitárias.

Construindo redes a partir do que já existe

Mais do que criar novas estruturas, o projeto aposta na conexão entre iniciativas já existentes nos territórios. A metodologia apresentada se baseia em três eixos principais: mapear, conectar e fortalecer.

Essa proposta se materializou no Mapa das Redes, uma dinâmica interativa que permitiu visualizar as relações entre organizações, coletivos e territórios. A atividade evidenciou o potencial de articulação existente e reforçou a importância de transformar ações isoladas em redes colaborativas.

Nesse contexto, as Bases de Serviços Solidários — localizadas na Zona Noroeste, Zona Sul e região do ABCDMRR — assumem papel estratégico, oferecendo formação, apoio técnico e articulação produtiva para os grupos participantes.

Escuta ativa como ferramenta de gestão

Outro diferencial importante foi a valorização da escuta ativa. Por meio de rodas de diálogo, o evento integrou tanto representantes institucionais quanto participantes do território, garantindo diversidade de vozes no processo.

Além dos registros tradicionais, a atividade contou com o chamado “registro vivo”, com depoimentos audiovisuais curtos que captaram percepções e expectativas dos participantes. Essa prática reforça o compromisso com uma gestão participativa, onde as decisões são orientadas pelas demandas reais dos territórios.

A força da convergência institucional

O lançamento também foi marcado pela articulação entre diferentes instituições, como o Corecon SP, o Sindicato dos Economistas de São Paulo, a Secretaria Nacional de Economia Solidária e o Instituto Redes.

Representando a Secretaria Nacional de Economia Solidária, Fernando Zambam destacou o potencial estratégico da iniciativa, ressaltando que a experiência construída nos territórios periféricos e nas realidades urbanas pode se consolidar como referência nacional. Segundo ele, a potência do projeto aponta para a possibilidade de se tornar um modelo replicável em outras regiões do país, contribuindo para o fortalecimento da economia solidária em contextos urbanos.

As falas institucionais foram objetivas e orientadas ao alinhamento estratégico, permitindo que o protagonismo permanecesse com as lideranças territoriais. Esse equilíbrio entre apoio institucional e atuação na base é essencial para garantir a sustentabilidade das ações.

O futuro se constrói em rede

O lançamento da Rede Trabalho e Cidadania na Periferia deixa um aprendizado importante: quando os territórios se organizam em rede, novas possibilidades de desenvolvimento emergem.

Mais do que uma proposta, a Rede se apresenta como um caminho concreto para fortalecer a economia solidária, promover trabalho digno e ampliar oportunidades nas periferias. O desafio agora é seguir aprofundando conexões, fortalecendo iniciativas e ampliando o impacto coletivo.

Porque, no fim, não se trata apenas de gerar renda — trata-se de construir caminhos de dignidade, autonomia e transformação social a partir dos próprios territórios.